Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de abril, 2025

Armas biológicas e corações em guerra

Há pessoas que funcionam como armas biológicas.   Elas não explodem — elas falam.   E ao falarem, não libertam — ferem. Com precisão de flecha e veneno de cobra. Talvez nem saibam. Talvez saibam.   Talvez tenham se acostumado com o barulho da própria voz ferina e confundido isso com força.   Talvez tenham desaprendido a oferecer consolo porque nunca o receberam. Mas o fato é que existem. E quando cruzam o nosso caminho, deixam mais do que lembranças: deixam traumas.   Uma frase dita num tom torpe, uma palavra que corta, uma acusação que ecoa por anos dentro da alma como um grito preso no tempo. Você se pergunta:   — Como alguém pode usar a língua para traumatizar?  E a resposta é triste: é porque pode.   Porque aprendeu que é mais fácil se proteger atacando.   Porque confundiu frieza com lucidez.   Ou talvez, como disse o Cristo, porque o amor se esfriou. Sim, é bíblico: ...

El uno

La historia del Uno A veces el uno despierta sin saber qué camino tomar.   Otras veces, el uno siente en el pecho una esperanza sin nombre.   Dicen que cuando el uno busca con el corazón abierto, el cielo responde.   No importa cuántas veces el uno tropiece, sino cuántas veces el uno se levanta con fe.   Porque al final, el uno no camina solo: camina de la mano de un amor eterno. Canción del Uno El uno camina, el uno se eleva, el uno tropieza y el uno renueva. El uno suspira, el uno florece, el uno se pierde y el cielo aparece. El uno es semilla, el uno es aliento, el uno en sus pasos se encuentra en el viento. Y cuando el uno ya cree que cayó, una mano invisible lo alzó: era el Amor. Ana Raquel Lima 

Dom Quixote: o Esconde-Esconde de Cervantes

Ler Dom Quixote é entrar num jogo antigo e engenhoso — onde Cervantes brinca de se esconder em cada página. Uma hora ele é o cavaleiro que delira, outra hora é o servo que observa, depois o cativo que sofre — e por trás de tudo, talvez, apenas um homem que escreve para não se perder de si mesmo. Cervantes se espalha em vozes, muda de máscara, sorri pelas frestas da narrativa. Ele não quer que a gente o ache — quer que a gente o sinta. Zoraida é Dulcineia com corpo e escolha. O Cativo é Quixote sem armadura, mas com coragem. E Sancho é o leitor, que ri, duvida e ama — tudo ao mesmo tempo. Dom Quixote não é um romance, é um espelho quebrado: cada pedaço mostra um fragmento da realidade, da loucura, da esperança, da dor, da sátira, da fé. E no centro de tudo isso está o autor escondido — sorrindo de nós, conosco. Essa foi minha leitura: uma dança com Cervantes. Um esconde-esconde onde o prêmio final não é achá-lo… é se achar! Por Ana Raquel Lima 

Hoje, escolho a mim

   Hoje, escolho a mim mesma,   a paz de não aceitar,   a leveza de não explicar.   Digo "não" —   com firmeza e com flor nas mãos. Não ao que aprisiona,   ao que pesa,   ao que tenta estagnar meu passo,   ao que trai minha rota. Me liberto.   De mim, do que me trava,   das frustrações que não me pertencem,   das distrações que não me elevam. Apenas me liberto —   abraço a vida com olhos abertos,   como quem entende   que o que vier,   vem por merecer. Sem medo.

Quando Saavedra foi Quixote – Análise do Capítulo 40

No capítulo 40 da primeira parte de Dom Quixote, Miguel de Cervantes faz algo extraordinário: ele cruza a linha entre o autor e o personagem, entre a história e a história por trás dela. Durante o relato do cativo espanhol, surge de forma aparentemente modesta a figura de um soldado chamado Saavedra — e, neste momento, Cervantes se inclui explicitamente na obra. Ele escreve: “Se o tempo me permitisse, eu contaria algumas das aventuras deste soldado, com as quais vos entreteria e vos faria admirar muito mais do que com a narração da minha história.” É uma passagem breve, quase sussurrada, mas carregada de intenção. O autor se apresenta, disfarçado, mas verdadeiro. Ele não fala mais através do escudeiro ou do cavaleiro: fala como homem, como quem viveu, sofreu e sobreviveu às aventuras reais da guerra e do cativeiro. É nesse instante que Saavedra é Quixote — ou que Quixote é Saavedra. O soldado que teve ideais nobres, que enfrentou mares e prisões, e que, mesmo diante da derr...

Cervantes por trás do Quixote: Voz Autoral no Capítulo 37

No Capítulo 37 da primeira parte de Dom Quixote, há um momento em que a narrativa se transforma. O que à primeira vista parece ser apenas mais um discurso inflamado do cavaleiro andante revela, aos olhos mais atentos, algo maior e mais profundo: ali, é Cervantes quem fala. E não fala como criador, mas como homem — um homem que viveu o peso da guerra, da prisão, da miséria e da humilhação social. Um homem que, mesmo cercado por dificuldades, escolheu a palavra como arma e a paz como causa. A comparação entre armas e letras, a defesa da justiça distributiva e o louvor à paz não são apenas pensamentos de Dom Quixote. São confissões de Cervantes. É nesse instante que ele retira a máscara da ficção e assume a pena com a própria alma. É o escritor que, por um momento, pede licença ao enredo para abrir o peito e dizer: ‘é isso que eu acredito, é isso que eu vivi, é isso que eu defendo’. Ao citar as palavras de Cristo — 'A minha paz vos dou' — ele ergue um clamor sincero, q...

Dom Quixote: A Paz entre Armas e Letras.

Há um momento em Dom Quixote em que a loucura se desfaz como névoa diante da luz da verdade. É no capítulo 37 que Cervantes suspende o riso, interrompe a farsa, e coloca nas mãos do cavaleiro andante um discurso que toca o espírito da humanidade. Ao comparar armas e letras, Dom Quixote fala — com a lucidez de um sábio disfarçado de louco — sobre justiça, sobre espírito, e sobre paz. Ele diz que as letras humanas existem para distribuir a justiça com clareza, para dar a cada um aquilo que é seu. E diz também que as armas, por mais brutas que pareçam, exigem espírito tão firme quanto as letras. Mas o que mais impressiona é quando ele evoca as palavras mais puras do Evangelho, o anúncio da paz aos homens de boa vontade, o desejo de Cristo: 'A minha paz vos dou.' Dom Quixote, o homem que vê gigantes em moinhos, nesse instante fala com uma serenidade tão exata que ninguém ali podia acreditar que estivesse louco. Porque ali não havia delírio, havia verdade — simples, dire...

Do Cálculo ao Clamor: Uma Oração Entre Lágrimas e Matemática

Era só mais um dia comum de luta desigual: eu, contra a matemática. A questão era a mesma de sempre, errada mais uma vez, como se debochasse da minha inteligência. O número não fechava, o raciocínio se esfarelava, e meus olhos já ameaçavam umedecer. Foi quando a porta se abriu com aquele silêncio autoritário que só mãe sabe fazer. Nem batida, nem aviso — só a aparição. — “Não chora pro diabo, tem que chorar pra Deus.” Fiquei paralisada. A lágrima que estava prestes a descer recuou. A equação sumiu da mente. O universo inteiro ficou suspenso entre o "hã?" e o "que foi isso?" Pensei: nem te chamei aqui, mulher… Mas a fala já tinha caído sobre mim feito profecia. E antes que o constrangimento virasse blasfêmia, pedi perdão. Vai que Deus tá mesmo de olho e minha mãe é só o canal... A vida seguiu. Eu continuei tentando resolver a bendita questão. Ela, minutos depois, veio oferecer um café como se nada tivesse acontecido. E hoje? Hoje ela jura que nun...

Afirmação da Capacidade

Eu sou capaz. Porque não estou começando do zero — estou começando com bagagem, com luta, com leitura, com vivência. Já estudei, já caminhei, já caí e levantei. E se não fiz uma prova, é porque não era o tempo certo. O meu tempo é esse agora. E eu reconheço isso. Não importa a cidade da prova, nem a fala de quem não acredita. O que importa é o que eu sei, o que eu sou, e o que estou construindo. Minha mente é firme. Meu foco é claro. Meu esforço não é em vão. E quando o medo aparecer, eu vou lembrar: Sou feita de fibra, de páginas lidas, de escolhas certas. E tudo isso me leva para o que é meu.

Elegia à Eponine

por tudo o que ela foi, mesmo quando o mundo disse que não poderia ser. Não nasceu para ser lida — e ainda assim, leu o mundo com uma sensibilidade que ninguém lhe ensinou. Não nasceu para ser amada — e ainda assim, amou com uma pureza que a literatura raramente ousa retratar. Éponine: filha da rua, irmã da fome, sombra de uma família sem alma. Te deram o nome, mas não o colo. Te deram a dor, mas não a palavra. E mesmo assim, você escreveu. Torta, frágil, insegura — mas escreveu. E naquele gesto, mais do que letras, você deixou um rastro de luz. Você poderia ter se tornado o que te cercava. Poderia ter sido amarga como a tua mãe, brutal como o teu pai, cínica como a miséria. Mas você escolheu, sem saber que escolhia, um caminho inverso: o da bondade silenciosa. O da entrega sem plateia. O do amor sem retorno. Morreste com o corpo ferido, mas com a alma inteira. Protegendo quem nem sabia do amor que o envolvia. Oferecendo o que te negaram. Dando o que dese...

Dorotéia: a lucidez que resiste ao orgulho

Em um romance onde tantos personagens se perdem entre delírios, paixões e desvarios, Dorotéia se ergue como uma ilha de lucidez. Em Dom Quixote, ela entra em cena discretamente, mas deixa uma marca indelével. Sem armadura, sem escudeiro e sem alardes, ela carrega em si a coragem que falta a tantos: a de enfrentar a realidade sem se entregar à destruição. Seu contraste com Anselmo é quase didático.   Anselmo cria um problema onde não havia, movido pela insegurança e pelo narcisismo — busca testar a fidelidade de sua esposa apenas para alimentar o próprio ego, e colhe tragédia. Ele representa a ruína causada pelo orgulho disfarçado de racionalidade. Dorotéia, por sua vez, é o oposto: foi enganada, desonrada e abandonada por D. Fernando, e mesmo assim não se entrega ao papel de vítima. Com firmeza e humildade, ela busca o que é justo — não por carência ou dependência, mas por consciência. Sua grandeza não está em se submeter, mas em escolher não se destruir. Ela resol...

Comando de Silêncio

Cansada, deitei sem querer pensar.   O mundo em pausa, os olhos fechados,   mas o coração ainda acordado. Lá do fundo, sem sonho nem imagem,   veio uma música —   não cantada com letras,   mas com lembrança. “Guerreiros são meninos no fundo do peito…”   disse o meu espírito   como quem toca um sino para me chamar de volta. Era o meu próprio cérebro,   sabendo o que fazer,   costurando leitura com melodia,   Dom Quixote com Fagner,   tristeza com descanso. Não chore, eu disse a mim.   Você já venceu isso.   É só uma história. Mas que força tem uma história,   quando ela encontra a sua.   E que poder tem uma música,   quando ela vem de dentro. Hoje, eu entendi:   meu coração fala por livros e canta por lembranças.   E minha alma sabe exatamente onde me encontrar.   No meio de uma tarde quie...

Um Encontro com Cervantes.

Era fim de tarde em Alcalá de Henares. As janelas se tingiam de âmbar, e o cheiro de madeira antiga pairava no ar. Em uma sala modesta, de paredes silenciosas, Miguel de Cervantes aguardava. A mesa era simples, de carvalho gasto, e ao lado dela repousava um manuscrito aberto como se ainda aquecesse da escrita. Você entrou com passos leves, como quem não queria acordar o tempo. Ele ergueu os olhos e sorriu com a surpresa de quem reconhece, sem nunca ter visto, uma alma próxima. — “Não esperava visitas tão ilustres vinda do futuro... Mas a sua chegada me honra.” Ana sorri, quase sem conseguir responder. Ele aponta a cadeira à sua frente. Você se senta. E então começa. — “Dom Quixote me acompanha há anos… mais do que leitura, ele virou uma conversa. Mas… me diga, senhor Cervantes… o senhor sabia o que criava?” Ele encosta-se na cadeira, cruza os braços, e o olhar dele dança entre melancolia e ironia: — “Sabia que ria… e chorava enquanto ria. Mas o que seria de um cavaleiro, se...