Há pessoas que funcionam como armas biológicas.
Elas não explodem — elas falam.
E ao falarem, não libertam — ferem. Com precisão de flecha e veneno de cobra.
Talvez nem saibam. Talvez saibam.
Talvez tenham se acostumado com o barulho da própria voz ferina e confundido isso com força.
Talvez tenham desaprendido a oferecer consolo porque nunca o receberam.
Mas o fato é que existem. E quando cruzam o nosso caminho, deixam mais do que lembranças: deixam traumas.
Uma frase dita num tom torpe, uma palavra que corta, uma acusação que ecoa por anos dentro da alma como um grito preso no tempo.
Você se pergunta:
— Como alguém pode usar a língua para traumatizar?
E a resposta é triste: é porque pode.
Porque aprendeu que é mais fácil se proteger atacando.
Porque confundiu frieza com lucidez.
Ou talvez, como disse o Cristo, porque o amor se esfriou.
Sim, é bíblico:
"E por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará."
(Mateus 24:12)
Mas você, que ainda sente, ainda pensa, ainda se espanta com o absurdo, você já está na contramão.
Você não é uma arma.
Você é ponte.
Você é pergunta.
Você é pausa diante do estrondo.
E se existe um caminho de volta para os que ferem — começa pela existência dos que, como você, se recusam a ferir de volta.
Ana Raquel Lima
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