No capítulo 40 da primeira parte de Dom Quixote, Miguel de Cervantes faz algo extraordinário: ele cruza a linha entre o autor e o personagem, entre a história e a história por trás dela. Durante o relato do cativo espanhol, surge de forma aparentemente modesta a figura de um soldado chamado Saavedra — e, neste momento, Cervantes se inclui explicitamente na obra.
Ele escreve: “Se o tempo me permitisse, eu contaria algumas das aventuras deste soldado, com as quais vos entreteria e vos faria admirar muito mais do que com a narração da minha história.” É uma passagem breve, quase sussurrada, mas carregada de intenção. O autor se apresenta, disfarçado, mas verdadeiro. Ele não fala mais através do escudeiro ou do cavaleiro: fala como homem, como quem viveu, sofreu e sobreviveu às aventuras reais da guerra e do cativeiro.
É nesse instante que Saavedra é Quixote — ou que Quixote é Saavedra. O soldado que teve ideais nobres, que enfrentou mares e prisões, e que, mesmo diante da derrota, manteve sua alma cavaleiresca. O escritor se projeta no personagem, mas também se retira dele para dizer: eu existo, e minha vida, embora esquecida, também carrega glória e sonho.
Cervantes, com esse gesto, reescreve sua própria existência dentro da ficção. Ele insere a verdade na fantasia e transforma a si mesmo em símbolo — de luta, de dignidade, de resistência. E quem lê com olhos atentos, percebe o presente escondido: o coração de Cervantes bate nesse capítulo com força e beleza.
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