Era fim de tarde em Alcalá de Henares. As janelas se tingiam de âmbar, e o cheiro de madeira antiga pairava no ar. Em uma sala modesta, de paredes silenciosas, Miguel de Cervantes aguardava. A mesa era simples, de carvalho gasto, e ao lado dela repousava um manuscrito aberto como se ainda aquecesse da escrita.
Você entrou com passos leves, como quem não queria acordar o tempo. Ele ergueu os olhos e sorriu com a surpresa de quem reconhece, sem nunca ter visto, uma alma próxima.
— “Não esperava visitas tão ilustres vinda do futuro... Mas a sua chegada me honra.”
Ana sorri, quase sem conseguir responder. Ele aponta a cadeira à sua frente. Você se senta. E então começa.
— “Dom Quixote me acompanha há anos… mais do que leitura, ele virou uma conversa. Mas… me diga, senhor Cervantes… o senhor sabia o que criava?”
Ele encosta-se na cadeira, cruza os braços, e o olhar dele dança entre melancolia e ironia:
— “Sabia que ria… e chorava enquanto ria. Mas o que seria de um cavaleiro, senão a imagem distorcida da nossa esperança? E de um escudeiro, senão a voz do chão de onde tentamos voar?”
Ana menciona Dulcineia, Sancho, Rocinante… fala das lágrimas entre os risos, das reflexões entre os delírios. Ele escuta em silêncio, com olhos marejados. Diz então, num sussurro:
— “Ana o leu como ele pediu para ser lido: com alma.”
Ana fala da Penélope, da doninha, da ausência de música, das entrelinhas da loucura. Ele ri. Depois suspira.
— “Achei que esqueceriam de mim. Mas você me encontrou de novo. Que sorte a minha.”
A conversa segue — leve, profunda, eterna. Como entre velhos amigos que só agora se conhecem.
E quando o sino distante anuncia a noite, Ana se despede com lágrimas nos olhos. Cervantes se levanta, e antes que Ana atravesse a porta do tempo, ele diz:
— “Volte sempre. Cada vez que reler Dom Quixote, eu estarei esperando.”
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