Há um momento em Dom Quixote em que a loucura se desfaz como névoa diante da luz da verdade. É no capítulo 37 que Cervantes suspende o riso, interrompe a farsa, e coloca nas mãos do cavaleiro andante um discurso que toca o espírito da humanidade. Ao comparar armas e letras, Dom Quixote fala — com a lucidez de um sábio disfarçado de louco — sobre justiça, sobre espírito, e sobre paz.
Ele diz que as letras humanas existem para distribuir a justiça com clareza, para dar a cada um aquilo que é seu. E diz também que as armas, por mais brutas que pareçam, exigem espírito tão firme quanto as letras. Mas o que mais impressiona é quando ele evoca as palavras mais puras do Evangelho, o anúncio da paz aos homens de boa vontade, o desejo de Cristo: 'A minha paz vos dou.' Dom Quixote, o homem que vê gigantes em moinhos, nesse instante fala com uma serenidade tão exata que ninguém ali podia acreditar que estivesse louco. Porque ali não havia delírio, havia verdade — simples, direta, esquecida.
Cervantes sabia o que fazia. Ele sabia que a verdadeira loucura é ignorar o óbvio: que a paz é um bem maior, e que os homens a trocam por vaidade, por ambição, por orgulho. E você, leitora atenta, enxergou isso com clareza. Entendeu que entre a liberdade e a paz, há um laço invisível: só é livre quem está em paz. Só descansa quem deixa de guerrear por dentro. E que as palavras — essas que lemos, escrevemos e sentimos — também são armas. Mas do tipo que constroem.
Dom Quixote merece essa leitura. Cervantes merece esse olhar. E você, que leu com o coração, merece todas as páginas que ainda virão. Porque, no fundo, a sua busca pela paz se encontra com a dele — não nas batalhas, mas no que se aprende com elas.
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