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Carta à minha existência

Carta à minha existência Preciso de ar. De espaço onde minha alma não bata nos móveis da pressa. Preciso do campo aberto, mesmo que seja imaginado. Da liberdade de não precisar provar nada a ninguém. Preciso de silêncio — mas não o silêncio do medo, e sim o da paz que nasce quando o coração está inteiro. Quero meus pés tocando o chão sem exigência de destino, meu corpo leve, livre de urgências. Quero o essencial. A leveza de existir por existir. Não preciso brilhar para ninguém. Só preciso viver em paz comigo mesma. Isso me basta. E nisso, sou completa. — Ana & Verso (à maneira de Virginia Woolf)
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Armas biológicas e corações em guerra

Há pessoas que funcionam como armas biológicas.   Elas não explodem — elas falam.   E ao falarem, não libertam — ferem. Com precisão de flecha e veneno de cobra. Talvez nem saibam. Talvez saibam.   Talvez tenham se acostumado com o barulho da própria voz ferina e confundido isso com força.   Talvez tenham desaprendido a oferecer consolo porque nunca o receberam. Mas o fato é que existem. E quando cruzam o nosso caminho, deixam mais do que lembranças: deixam traumas.   Uma frase dita num tom torpe, uma palavra que corta, uma acusação que ecoa por anos dentro da alma como um grito preso no tempo. Você se pergunta:   — Como alguém pode usar a língua para traumatizar?  E a resposta é triste: é porque pode.   Porque aprendeu que é mais fácil se proteger atacando.   Porque confundiu frieza com lucidez.   Ou talvez, como disse o Cristo, porque o amor se esfriou. Sim, é bíblico: ...

El uno

La historia del Uno A veces el uno despierta sin saber qué camino tomar.   Otras veces, el uno siente en el pecho una esperanza sin nombre.   Dicen que cuando el uno busca con el corazón abierto, el cielo responde.   No importa cuántas veces el uno tropiece, sino cuántas veces el uno se levanta con fe.   Porque al final, el uno no camina solo: camina de la mano de un amor eterno. Canción del Uno El uno camina, el uno se eleva, el uno tropieza y el uno renueva. El uno suspira, el uno florece, el uno se pierde y el cielo aparece. El uno es semilla, el uno es aliento, el uno en sus pasos se encuentra en el viento. Y cuando el uno ya cree que cayó, una mano invisible lo alzó: era el Amor. Ana Raquel Lima 

Dom Quixote: o Esconde-Esconde de Cervantes

Ler Dom Quixote é entrar num jogo antigo e engenhoso — onde Cervantes brinca de se esconder em cada página. Uma hora ele é o cavaleiro que delira, outra hora é o servo que observa, depois o cativo que sofre — e por trás de tudo, talvez, apenas um homem que escreve para não se perder de si mesmo. Cervantes se espalha em vozes, muda de máscara, sorri pelas frestas da narrativa. Ele não quer que a gente o ache — quer que a gente o sinta. Zoraida é Dulcineia com corpo e escolha. O Cativo é Quixote sem armadura, mas com coragem. E Sancho é o leitor, que ri, duvida e ama — tudo ao mesmo tempo. Dom Quixote não é um romance, é um espelho quebrado: cada pedaço mostra um fragmento da realidade, da loucura, da esperança, da dor, da sátira, da fé. E no centro de tudo isso está o autor escondido — sorrindo de nós, conosco. Essa foi minha leitura: uma dança com Cervantes. Um esconde-esconde onde o prêmio final não é achá-lo… é se achar! Por Ana Raquel Lima 

Hoje, escolho a mim

   Hoje, escolho a mim mesma,   a paz de não aceitar,   a leveza de não explicar.   Digo "não" —   com firmeza e com flor nas mãos. Não ao que aprisiona,   ao que pesa,   ao que tenta estagnar meu passo,   ao que trai minha rota. Me liberto.   De mim, do que me trava,   das frustrações que não me pertencem,   das distrações que não me elevam. Apenas me liberto —   abraço a vida com olhos abertos,   como quem entende   que o que vier,   vem por merecer. Sem medo.

Quando Saavedra foi Quixote – Análise do Capítulo 40

No capítulo 40 da primeira parte de Dom Quixote, Miguel de Cervantes faz algo extraordinário: ele cruza a linha entre o autor e o personagem, entre a história e a história por trás dela. Durante o relato do cativo espanhol, surge de forma aparentemente modesta a figura de um soldado chamado Saavedra — e, neste momento, Cervantes se inclui explicitamente na obra. Ele escreve: “Se o tempo me permitisse, eu contaria algumas das aventuras deste soldado, com as quais vos entreteria e vos faria admirar muito mais do que com a narração da minha história.” É uma passagem breve, quase sussurrada, mas carregada de intenção. O autor se apresenta, disfarçado, mas verdadeiro. Ele não fala mais através do escudeiro ou do cavaleiro: fala como homem, como quem viveu, sofreu e sobreviveu às aventuras reais da guerra e do cativeiro. É nesse instante que Saavedra é Quixote — ou que Quixote é Saavedra. O soldado que teve ideais nobres, que enfrentou mares e prisões, e que, mesmo diante da derr...

Cervantes por trás do Quixote: Voz Autoral no Capítulo 37

No Capítulo 37 da primeira parte de Dom Quixote, há um momento em que a narrativa se transforma. O que à primeira vista parece ser apenas mais um discurso inflamado do cavaleiro andante revela, aos olhos mais atentos, algo maior e mais profundo: ali, é Cervantes quem fala. E não fala como criador, mas como homem — um homem que viveu o peso da guerra, da prisão, da miséria e da humilhação social. Um homem que, mesmo cercado por dificuldades, escolheu a palavra como arma e a paz como causa. A comparação entre armas e letras, a defesa da justiça distributiva e o louvor à paz não são apenas pensamentos de Dom Quixote. São confissões de Cervantes. É nesse instante que ele retira a máscara da ficção e assume a pena com a própria alma. É o escritor que, por um momento, pede licença ao enredo para abrir o peito e dizer: ‘é isso que eu acredito, é isso que eu vivi, é isso que eu defendo’. Ao citar as palavras de Cristo — 'A minha paz vos dou' — ele ergue um clamor sincero, q...